Deus,
não é bem um problema, mas já que o padre da paróquia passa mais tempo mandando ver no coroinha do que no confessionário, preciso de alguém para um conselho.
Um bom amigo está partindo, não no sentido moribundo da expressão, mas se mudando geograficamente mesmo. Apesar dele estar indo para um país em crise, não muito bem-visto pelo resto do planeta que o Senhor denominou Terra, eu fico feliz por ele, mas triste por perder o contato diário com um irmão.
Eu sei, é egoísta, eu sei, o Todo Poderoso não tem que pagar de psicólogo, mas é um momento de angustia.
A benção.
Douglinhas
Deus:
Astuto Douglinhas,
Sinto que o âmbito de seu problema transcende suas angústias pessoais e atingem também o universo acima da troposfera, assim como outros dois universos: o dos que já deixaram sua carcaça pelo planeta e outro um pouco a direita do meridiano de Greenwich.
Costumo pensar nos laços de amizade como um grande elástico. Quando a Terra estava em sua infância, havia um único supercontinente, o Pangea. Era uma galera, todo mundo junto, organizado, dinosauros correndo livremente ao sol do meio dia. E haviam 5 muleques, de 5 tribos diferentes, diferentes criações, origens, idades, enfim. Eles se davam muito bem, eram amigos, criaram laços, laços elásticos. Pois muitas vezes sumiam do mapa, iam cuidar de seus problemas, mas o laço nunca arrebentou, porque sempre quando alguém do outro lado da conexão puxava, os outros atendiam, sempre que dava, claro. Sem desculpas, sem firulas, simples como uma cerveja gelada numa tarde morna de verão.
Mas, alguma hora as coisas mudam. As barreiras ficam maiores, as prioridades mudam e a sobrevivência passa a ser o foco principal. Como disse ali em cima, eles moravam num continente único. Acontece que debaixo desse continente exisitiam placas tectônicas. Confesso que a culpa foi minha. O pessoal não se desenvolvia, estavam entediados, estagnados. Já tinham organizado corridas ao redor do continente, era tudo uma coisa só, chato de se observar aqui de cima. Então propus um terremotinho sussa para agitar as coisas aí embaixo, com o perdão do trocadilho e da analogia sexual.Os 5 acabaram indo cada um para um canto com a separação dos continentes. Os laços se esticaram o máximo que puderam, mas não chegaram sequer a ameaçar rompimento. Um de cada lado do seu território tentou encontrar maneiras de voltar a um ponto pré definido pelos amigos, em qualquer momento da história a promessa do reencontro ficou selada. Assim a navegação e as técnicas de comunicação intercontinetais foram se desenvolvendo século após século.
O DNA de cada um e a história original dos 5 amigos foi passando de geração para geração e tomando proporções inimagináveis. A profecia sobre o reencontro deles tomou proporções muito maiores do que a Dança do Quadrado no YouTube. Era o laço elástico, maldito, se recusando a arrebentar.
Cuidado por hordas de cavaleiros religiosos, o segredo sempre esteve muito bem guardado. Alguns diziam que fazia alusão ao retorno de um dos amigos à Terra, dizendo que tinha se tornado uma divindade, o que Eu, Fucking Powerfull, não disconcordo nem acordo, nem digo mais nada para não comprometer o caráter psico-mito-antropológico da bagaça toda. Criaram enigmas, códigos, obras de arte, coreografias de ginástica aeróbica, hai kais, enfim, tudo para proteger um segredo. O que muitos fanáticos babaquinhas por aí não sabiam é que ele estava em 5 lugares diferentes. A profecia estava correta e os amigos originais estavam vindo ao reencontro, após séculos e trilhares de cadeias de DNA.
Na cidade mitológica de Eldorado, que muito acreditavam ser no Peru, mas era na Colômbia. Trazida por Vikings até a América, uma família Nórdica adotada pelos Incas deu origem ao primeiro dos 5 Herdeiros Originais do Mito da Amizade Intercontinental.
O outro era onde muitos imaginavam, pela codificação original do Mito. A cidade do Louvre aguardava mais um dos 5 descendentes da formação original. Atraido das Américas por uma paixão incontrolável regada a queijos fedidos e perfumes caríssimos, lá escolheu o paradeiro do nascimento do Herdeiro número 2.
Já o próximo vinha de uma linhagem nobre de pianistas de Pompéia. Construindo instrumentos refinadíssimos e assim por dizer, afinadíssimos também a partir de bigodes de gato e fios de pão de queijo. Porém, por mais um desastre sísmico e vulcânico, sua geração se esgotou em apenas alguns minutos, indo todos perambular como ectoplasma pelo mundo terreno até que suas pendências de resolvessem. E o mais improvável aconteceu, vida foi gerada dentro mundo dos mortos e assim nasceu o Terceiro.
Nas proximidades da Síria vivia uma família de desenhistas das areias. Faziam esculturas, até grafismos enormes sinalizando pistas de pouso alienígenas no deserto. Seu pequeno rebento já nasceu rabiscando a cara do pai na areia. Era o Quarto.
Por fim, nos porões da caravela de Pero Vaz de Caminha, um casal adolescente era treinado pelo próprio escriba oficial da Monarquia Portuguesa a enviar cartas à família. Na incessante busca pelo herdeiro, o marido inventou as primeiras rodoviárias de carroça no Brasil. A mulher, cozinheira de mão cheia, juntou alguns ingredientes básicos e uma fritadinha no óleo para inventar a coxinha, juntando temos a coxinha de rodoviária, vício de seu filho, o Quinto.
Os 5 filhotes de DNA ancestral cresceram separadamente, mas inconscientemente sabiam de sua missão. Foi quando num momento simultâneo de suas vidas que fizeram um teste. Esse teste levou-os a se encontrar e revelar a verdade que os angustiava. Assim desenvolveram mais ainda o laço elástico fraterno e isso fez com que eles percebessem que nunca ia se romper. A lenda nunca foi revelada a nenhuma outra pessoa, e só eles sabiam o destino que os aguardava, mesmo que um dia tivessem que se separar um dia, quando a verdade foi revelada, ficaram tranquilos.
Caro fiel, imagine se na época do Pangea tivesse MSN, Orkut, Flickr, Skype e etc. O que eu quero dizer é que a saudade morreu meu caro. Morreu em parte, claro, mas morreu na forma assassina e romântica da palavra. Claro que não vai dar pra dar aquele abraço, beber uma cerva ou jogar uma partida de videogame dando uns tapas no cara do lado, mas o contato, de uma forma ou de outra ainda está lá. E o mundo digital afrouxou o laço elástico da amizade mas esticou ainda mais o da distância.
O pequeno causo acima ensina que não devemos perder fé em nossa própria força para rever aqueles que nos fazem bem e fazem parte da nossa história. Eles sempre estarão diretamente ou não, nos nossos planos de vida. E nós nos deles. Até que venha a próxima geração e eles sejam ensinados com os mesmos valores e mantenham os mesmos fabulosos laços elásticos inarrebentáveis da amizade e camaradagem.
Seu amigo vai fazer uma puta falta, sempre, seria idiota de enganá-lo que não. Baladas não serão mais as mesmas, e a cerveja por mais gelada que esteja, ficará um pouco mais morna a cada lembrança. Contudo, fique tranquilo, mantenha o MSN online nas madrugadas e passe na embaixada para garantir um encontro internacional por ano.
Agüinhas Santas respingadas com a ponta dos dedos em sua face,
D.
“Ihre Nachkommen werden leistungsstarke auf der Erde: die Generation der Herausforderungen wird gesegnet.” Salmos 22:11